Ir para o conteúdo

Tema de redação: A persistência do bullying no ambiente escolar brasileiro

Por Equipe Azimus · · Atualizado

Professora e alunos em sala de aula diante de um mapa mental sobre bullying no ambiente escolar.

Resumo: Este tema pede que se discuta por que o bullying — uma agressão intencional e repetida entre estudantes, marcada por desequilíbrio de poder — continua presente nas escolas brasileiras. A análise segue duas frentes: a escola ainda responde com ações pontuais, sem um protocolo contínuo, e parte da comunidade escolar trata a humilhação como brincadeira.

Proposta de redação

A partir da leitura dos textos motivadores e dos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo, em modalidade escrita formal da língua portuguesa, sobre o tema “Desafios para enfrentar a persistência da violência e do bullying no ambiente escolar brasileiro”. Defenda um ponto de vista e apresente uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.

Texto motivador I

A Lei nº 13.185, de 6 de novembro de 2015, institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying) e define essa prática como violência física ou psicológica, intencional e repetitiva, sem motivação evidente, em uma relação de desequilíbrio de poder. O artigo 5º determina que as escolas adotem medidas de conscientização, prevenção, identificação e combate. O artigo 4º, inciso VIII, orienta evitar, quando possível, a punição isolada de quem pratica bullying e priorizar a responsabilização e a mudança de comportamento.

Fonte: Presidência da República — Lei nº 13.185, de 6 de novembro de 2015.

Texto motivador II

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e com a colaboração do Ministério da Educação, ouviu estudantes de 13 a 17 anos de escolas públicas e privadas. No Brasil, 27,2% declararam ter sofrido bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa; em 2019, o mesmo indicador era 23,0%. Os percentuais foram próximos na rede pública (27,2%) e na privada (27,5%). As respostas registram a experiência relatada pelos próprios estudantes, não um diagnóstico clínico.

Fonte: IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, divulgação em 25 de março de 2026.

Texto motivador III

A Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024, estabelece medidas para proteger crianças e adolescentes contra a violência em escolas públicas e privadas. Os artigos 2º e 3º determinam que municípios e Distrito Federal, em cooperação com Estados e União, desenvolvam protocolos com órgãos de segurança, serviços de saúde e a comunidade escolar. A lei também prevê formação continuada dos professores e orientação para a comunidade e a vizinhança da escola.

Fonte: Presidência da República — Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024.

O recorte

O problema não é um conflito isolado no pátio, mas a repetição de agressões físicas, verbais, sociais ou virtuais entre estudantes. O foco está em quem sofre o bullying e também em quem presencia ou pratica essas agressões, tanto na rede pública quanto na privada. Uma briga pontual sem repetição ou desequilíbrio de poder, a violência doméstica como assunto principal e os ataques armados como único retrato da insegurança escolar ficam fora do centro do tema.

O artigo 1º, § 1º, da Lei nº 13.185/2015 ajuda a fazer essa distinção: bullying envolve intenção, repetição e desequilíbrio de poder. Sem esses elementos, a redação corre o risco de discutir indisciplina ou violência escolar de forma genérica. O cyberbullying pertence a este recorte quando a humilhação ocorrida no meio digital está ligada às relações entre estudantes e ao convívio escolar, e não quando aparece como um debate amplo sobre a internet.

Repertórios para desenvolver a discussão

Repertório

O que é

Como conectar ao tema

Erro de uso

Lei nº 13.663/2018, que alterou o art. 12 da Lei nº 9.394/1996 (LDB)

Incluiu, entre as responsabilidades das escolas, promover a conscientização, a prevenção e o combate a todos os tipos de violência, especialmente o bullying (inciso IX), além de desenvolver ações de cultura de paz (inciso X).

Sustenta que a escola não pode tratar o problema como opcional: a prevenção passou a ser um dever da instituição.

Citar a LDB como se ela já apresentasse um programa completo, com currículo e financiamento definidos.

Estatuto da Criança e do Adolescente, arts. 53, II, e 70

O art. 53, II, assegura à criança e ao adolescente o direito de ser respeitado por seus educadores; o art. 70 afirma que é dever de todos prevenir ameaça ou violação desses direitos.

Permite argumentar que a omissão diante da humilhação reiterada fere o direito à educação em condições de respeito, não apenas a convivência “agradável”.

Transformar o ECA em pedido de expulsão automática, sem mediação nem garantia de continuidade escolar.

Art. 146-A do Código Penal, incluído pela Lei nº 14.811/2024

Define a intimidação sistemática como crime punido com multa, caso a conduta não constitua crime mais grave, e prevê, no parágrafo único, reclusão de dois a quatro anos e multa para o cyberbullying.

Mostra que o Estado passou a prever consequências penais. Isso não substitui o protocolo escolar nem autoriza tratar todo adolescente como criminoso.

Reduzir a redação a “prender o aluno” e ignorar a prevenção, a escuta da vítima e a mudança de comportamento.

Caminhos de argumentação

Por que o bullying entre estudantes continua frequente nas escolas brasileiras depois de leis que já atribuem deveres à instituição?

Resposta institucional ainda episódica

O dever de prevenir e identificar o bullying já existe. Sem um protocolo aplicado todos os dias — com registro, encaminhamento, formação docente e diálogo com os responsáveis —, a escola tende a reagir apenas durante campanhas ou quando surge um caso grave. A Lei nº 14.811/2024 só muda o cotidiano quando o município e cada escola transformam suas determinações em procedimentos claros e capacitação contínua. Sem essa aplicação prática, episódios repetidos podem passar despercebidos ou ser tratados de maneira improvisada, o que dificulta interromper a violência.

Clima que naturaliza a humilhação

A mesma pesquisa pergunta se algum colega “esculachou, zoou, mangou, intimidou ou caçoou” o estudante até magoá-lo. Quando a comunidade escolar trata essas atitudes como brincadeira, deixa de perceber o desequilíbrio de poder e demora a interromper a violência. As meninas relataram bullying recorrente em proporção maior (30,1%) que os meninos (24,3%); 13,7% dos estudantes disseram ter praticado bullying nos 30 dias anteriores. Se a vítima não encontra um canal seguro para falar e quem agride não é orientado a reparar o dano, o grupo aprende a aceitar a humilhação. Esse clima gera medo e prejudica a convivência, a participação e a aprendizagem.

Rotas de intervenção

Protocolo contínuo na rede de ensino

  • Agente: secretarias municipais e estaduais de Educação, em cooperação com segurança pública, saúde e conselhos tutelares.

  • Ação: implantar e revisar anualmente o protocolo de proteção de cada escola.

  • Meio: fluxo escrito de escuta da vítima, registro, comunicação à família, encaminhamento psicossocial e acompanhamento do estudante que praticou a intimidação.

  • Finalidade: interromper a repetição sem substituir o cuidado escolar por punição isolada.

  • Detalhamento: publicar o fluxo em linguagem acessível a estudantes e responsáveis e formar a equipe no início de cada ano letivo.

Formação docente para cultura de paz

  • Agente: coordenação pedagógica da escola, com apoio da secretaria de Educação.

  • Ação: oferecer regularmente formação à equipe para prevenir o bullying e promover uma cultura de paz.

  • Meio: estudo de casos, mediação de conflitos e critérios para distinguir uma brincadeira de uma agressão intencional e repetida.

  • Finalidade: dar ao professor instrumento para interromper a humilhação no momento em que ela ocorre.

  • Detalhamento: incluir representantes estudantis na avaliação do clima escolar, sem expor vítimas em assembleia.

Perguntas para orientar seu planejamento

Use estas perguntas para escolher e testar seu caminho argumentativo; não é necessário desenvolver todas.

  • A situação usada como exemplo é bullying — uma agressão intencional e repetida, marcada por desequilíbrio de poder — ou é um conflito isolado, que exige outro recorte?

  • A escola da sua argumentação tem protocolo escrito ou só reage quando o episódio vira denúncia?

  • Como a capacitação docente muda o que acontece no intervalo, e não só na semana da campanha?

  • Qual é a diferença entre responsabilizar quem pratica bullying e aplicar uma expulsão automática?

  • O cyberbullying que você menciona começa no grupo da turma ou é um problema genérico de internet?

  • O que a proximidade entre os percentuais das redes pública e privada revela sobre explicações que atribuem o problema somente à falta de recursos?

Leia também

Perguntas frequentes

O que são caminhos de argumentação na redação do ENEM?
Caminhos de argumentação são as linhas de raciocínio usadas para explicar as causas, consequências ou fatores que sustentam um ponto de vista sobre o tema. No caso do bullying escolar, por exemplo, dois caminhos são a resposta institucional ainda episódica e a naturalização da humilhação pela comunidade escolar.
Quais caminhos de argumentação podem ser usados em uma redação sobre bullying?
Para o tema sobre a persistência do bullying no ambiente escolar, dois caminhos são especialmente pertinentes: analisar como a ausência de protocolos contínuos dificulta a prevenção e identificar como a naturalização da humilhação como “brincadeira” contribui para a continuidade das agressões.
Como escolher os caminhos de argumentação para a redação do ENEM?
A escolha deve partir do problema apresentado pelo tema e das relações de causa e consequência que podem ser defendidas com coerência. É importante selecionar argumentos que permitam explicar o problema e desenvolver uma tese, em vez de apenas listar aspectos relacionados ao assunto.
É preciso usar todos os caminhos de argumentação possíveis na redação?
Não. O estudante deve selecionar os caminhos que consegue desenvolver de forma consistente. As possibilidades servem para orientar o planejamento da redação; não é necessário abordar todos os aspectos relacionados ao tema.
Como transformar um caminho de argumentação em um parágrafo de desenvolvimento?
Primeiro, apresente a ideia central do argumento. Depois, explique a relação dela com o problema discutido, utilize informações ou repertório pertinente para sustentá-la e desenvolva suas consequências. O objetivo é construir uma relação lógica entre a causa ou fator apresentado e a persistência do problema.